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quinta-feira, 18 de março de 2010

A música é também um excelente estímulo para o desenvolvimento das potencialidades da criança.

A música influencia diretamente no desenvolvimento infantil, desde o útero materno, onde o bebê já reage a estímulos sonoros produzidos pelo meio externo, e por toda sua infância.

A música transmite bem estar e tranquilidade à mãe e ao bebê, desde a gestação. Recém nascidos expostos à música de melodia mais serena são, em geral, mais tranquilos. E, sendo o ouvido um órgão muito sensível no ser humano e, ainda mais, em recém nascidos, bebês e crianças, é importantíssimo estar atento à altura de qualquer som a que uma criança esteja exposta e, inclusive o uso de fones de ouvido, só deve ser efetuado com volume baixo e de forma moderada.

A estimulação infantil com músicas proporciona diversos benefícios:

Estimula o desenvolvimento da linguagem oral, aquisição da leitura e escrita, melhorando a capacidade de memorização e de raciocínio lógico;
Auxilia no aprimoramento da coordenação motora;
Ensina a ouvir as pessoas ao seu redor e os ruídos do ambiente em que esta inserido;
Estimula a socialização, pois a criança aprende a conviver melhor com os adultos e com as outras crianças;
Comunicação mais efetiva e harmoniosa;
Melhoria da concentração para aquisição do aprendizado;
Ajuda a desenvolver o vínculo afetivo entre pais e filhos.
Alfabetização- O nome como referência de trabalho
O NOME COMO REFERÊNCIA DE TRABALHO


Para se obter o resultado esperado, o trabalho com a escrita deve apresentar situações identificáveis para a criança e que representem algo, como no caso dos rótulos, ou alguém importante na sua vida.
Por esse motivo, encaminha-se também o trabalho pelo marco identificatório que é o próprio nome da criança. Com função de identificação, a palavra merece ser analisada por se configurar como texto.
Ressaltamos ainda a importância de se efetivar este trabalho com outros nomes:


da escola,


dos pais,


da cidade,


dos estados,


do país,


de revistas


e jornais, envolvendo-os em reflexões, auxiliando os alunos a fazerem relações básicas a respeito da língua escrita.



ALGUMAS SUGESTÕES PARA O TRABALHO COM NOME



- Escreva e leia o nome da criança em crachás, utilizando letra de imprensa maiúscula (caixa-alta) na presença dela, para que ela perceba.



- Estabeleça relações dos nomes dos alunos com outros que:



. têm o mesmo número de letras:


ex.: ALINE/ ANDRÉ/ JOYCE/ MARIA



. iniciam com a mesma pronúncia:
JOSILENE / JOSÉ



. iniciam com a mesma letra:


ROGÉRIO/ RICARDO/ RENATA



. terminam com a mesma pronúncia:


JULlANA / MARIANA / JOANA / JÉFERSON / ÂNDERSON / CLÉVERSON



. contêm palavras em si:
LUANA/ LUA/ ANA
LUCIANO /LÚCIA/ ANO
MÁRCIO/ MAR

. já foram contextualizados em sala de aula:
SAPO /SÔNIA/ SILVANA




Relacione o nome dos alunos com o nome do professor, da escola, da cidade, etc.

Escreva no quadro-de-giz o seu nome e leia em voz alta.

Destaque a letra inicial dizendo o nome da letra.-

Solicite aos alunos que recortem, de jornais e revistas, a letra inicial do nome do professor e colem no caderno.

Proponha a pesquisa de nomes que iniciam com a letra L, nos crachás dos alunos da sala.

Pedir a eles que pesquisem em revistas e jornais as letras que compõem o próprio nome.

Utilize os crachás para fazer chamada e jogos.

Monte o nome com o alfabeto móvel.

Selecione rótulos de produtos cujos nomes comecem com a letra inicial dos nomes dos colegas.

Copie o nome em etiquetas para identificar o materiat escolar.

Faça uma lista no quadro, separando os nomes de meninos e meninas. Depois, peça que copiem.

Mostre alguns desenhos de objetos cujos nomes também começam com a letra L. Peça aos alunos que digam os nomes dos objetos, escreva-os no quadro e, depois, solicite que copiem no caderno.

Proponha uma pesquisa de rótulos cujos nomes dos produtos também iniciam com a letra L e monte um mural com os alunos.

Solicite aos alunos que montem o nome do professor, com o acervo de letras. Peça que pintem da mesma cor as letras que se repetem no mesmo nome.

Solicite aos alunos que montem o nome Luciana, com o alfabeto móvel. Proponha que retirem as letras e observem os nomes encontrados.

Sugira aos alunos a brincadeira stop com a letra L.É interessante, durante todo o trabalho de alfabetização, propor desafios aos alunos, para que eles pensem sobre a escrita, sobre o que ela representa e como representa graficamente a linguagem.

musicas infantis

As cantigas fazem parte da nossa infância e é nosso dever como educadores preservá-las, incentivando nossas crianças a cantá-las, brincarem com elas. Elas não devem servir apenas para alfabetizar, as cantigas devem fazer parte do cotidiano da sala de aula. E por isso, por ser um texto memorizado, é que elas podem servir como textos auxiliares para alfabetização.

O lúdico deve estar presente nesta fase da criança, a alfabetização deve ser vista, como algo prazeroso por ela, e não com exercícios cansativos e repetitivos de cópias e sem significado para a criança. No decorrer do processos de alfabetização os erros vão sendo corrigidos, mas no início o mais importante é a criança ter o prazer em aprender a ler e a escrever.



Música: Meu Pintinho Amarelinho

Meu pintinho amarelinho

Cabe aqui na minha mão

Na minha mão.


Quando quer comer bichinho

Com seus pezinho ele cisca o chão.


Ele bate as asas

Ele faz piu, piu

Mas tem muito medo é do gavião.












Música: A Janelinha

A janelinha fecha

Quando está chovendo

A janelinha abre

Se o sol está aparecendo.


Fechou, abriu
Fechou, abriu, fechou


Abriu, fechou
Abriu, fechou, abriu.















Música: O Jipe

O jipe do padre
Fez um furo no pneu
O jipe do padre
Fez um furo no pneu
O jipe do padre
Fez um furo no pneu
Consertamos com chiclete.















Música: Sapo Cururu

Sapo Cururu
Na beira do rio
Quando o sapo grita, ó maninha!
É que esta com frio.
A mulher do sapo
É que está lá dentro
Fazendo rendinha, ó maninha!
Pro seu casamento.

















Música: Barata

Eu vi uma barata
Na careca do vovô
Assim que ela me viu
Bateu asas e voou
Seu Joaquim, quirim quim
Da perna torta ta ta ta
Dançando conga, ga ga
Com a Maricota, ta ta.

















Música: Borboletinha

Borboletinha
Tá na cozinha
Fazendo chocolate
Para a madrinha
Poti, poti
Perna de pau
Olho de vidro
E nariz de pica-pau
Pau-pau.















Música: Cachorrinho está latindo.

Cachorrinho está latindo
Lá no fundo do quintal
Cala a boca cachorrinho
Deixa o meu benzinho em paz
Crio lê lê
Criô lê lê lá lá
Criô lê lê
Não sou eu quem caio lá.




Música: Motorista

Motorista, motorista
Olha a pista
Olha a pista
Não é de salsicha
Não é de salsicha
Não é não
Não é não

Motorista, motorista
Olha o poste
Olha o poste
Não é de borracha
Não é de borracha
Não é não
Não é não.














Música: Casinha

Fui morar numa casinha-nha
Infestada-da de cupim-pim-pim
Saiu de lá- lá- lá
Uma lagartixa-xa
Olhou pra mim
Olhou pra mim
Olhou pra mim
E fez assim:
Smack... Smack....

terça-feira, 16 de março de 2010

Infância e Atualidade: A Concepção de Infância na Prática Educativa

Resumo

Este trabalho discute a questão da concepção da infância na atualidade, a partir da perspectiva social e educacional, de modo a focalizar qual o conceito que ambas trazem sobre a infância. A orientação teórico-metodológica foi baseada em autores que discutem a concepção de infância historicamente e na atualidade, como Áries, Andrade, Paula, e também os referenciais curriculares nacionais de educação infantil que em suas diretrizes defende uma determinada maneira de compreender a infância. O trabalho analisa através da observação a prática pedagógica realizada em uma escola municipal. Conclui que, no âmbito educacional, apesar de estudos mais recentes sobre a infância como construção social e as crianças como produtoras também de conhecimento, a criança ainda é percebida com um "vir a ser", sendo a educação um ato de formação da criança para o futuro.

Palavras-chave: Infância ? Sociedade - Educação

Introdução

A questão problemática da pesquisa é acerca do conceito de infância na educação atual de modo, a saber, se esta tem sido influenciada pela sociedade em seu modo de "ver" a infância.

O interesse pelo tema surgiu por meio de leituras de autores que tratam dessa problematização onde se discute a concepção de infância na sociedade atual, e que por sua vez, me levou a refletir sobre a questão desta concepção no âmbito educacional, ou seja, tendo em vista que a escola faz parte do contexto social e desta adquire influências como a mesma pensa a criança; como um "vir a ser", sendo seu papel formá-la para o futuro, ou pensa nestas como um ser que está sendo no presente, ou seja, como produto ou produtora de culturas?

Sobre estas questões acredito que a pesquisa irá nos auxiliar a pensar sobre qual nosso modo de conceber a infância e como olhamos para a criança, pois acredito que com base nesse modo de pensar e olhar é que ensinamos. Portanto, meu intuito é levar a reflexão a partir dos aspectos teóricos e práticos apresentados.

A pesquisa se direciona a relacionar minha observação prática, realizada em uma escola municipal, com a pesquisa teórica que me direcionou ao tema. Desta forma, meu trabalho está estruturado em primeiramente trazer definições do que foi e é a infância no âmbito social, histórico, e saber como a sociedade atual a concebe, e como a escola, a educação pensa a infância, e, ainda, se suas práticas favorecem o desenvolvimento da criança e valoriza a infância.

Pensar em concepção de infância na atualidade nos remete a refletir sobre os diversos âmbitos que esta questão traz, mas me delimitarei a pensar nesta sobre o contexto social atual e no contexto educacional, tendo como base a concepção de infância que o Referencial Curricular Nacional para educação infantil traz em suas propostas.

Observamos que segundo Neto e Silva (2007) a palavra infância vem de En-fant que significa "aquele que não fala", isso podemos ver refletido sobre o processo de construção da infância na sociedade, onde observamos figura da criança como aquele que não tem capacidade de ser, estar e atuar por ser criança, ou seja, vista apenas como um ser moldado pelo adulto ou como um indivíduo sem valor, sem um espaço na sociedade, e isso decorre desde a sociedade medieval até tempos atrás, onde começa a mudar tais concepções e passa-se a ver a criança como um indivíduo pertencente ao meio social com sua cultura e seu modo de entender o mundo, pois segundo Paula (2005) antes "a criança inexistia ou ficava adstrita a escassos momentos". (p.1). Ou seja, não participava do meio, era isolada como um indivíduo que nada sabe.

Áries (1979) ressalta que "na sociedade medieval a criança a partir do momento em que passava a agir sem solicitude de sua mãe, ingressava na sociedade dos adultos e não se distinguia mais destes". (p.156). Ou seja, a criança passava a ser um "adulto em miniatura", e a viver como tal.

Mas a concepção de infância vai sendo mudada conforme a sociedade passa a vê-la com um olhar mais centrado de que esta é um indivíduo que pertence à sociedade, que está inserido em sua cultura e dela aprende, tem "voz", ou seja, tem sua forma de vivê-la, e por esta é influenciada e a esta também influencia.

Isto porque se acredita que a concepção de infância está ligada à cultura que vivemos e a sociedade que nós adultos criamos para as crianças, e como um ser moldado pela cultura e pela sociedade estas vivem as influências de sua época.

Áries (1979) diz que "a 'aparição' da infância se dá a partir do século XVI e XVII na Europa, quando o mercantilismo, altera o sentimento e as relações frente à infância, modificado conforme a própria estrutura social". (p.14). Isto porque com novas viabilizações da economia e frente a novos desafios econômicos se pensava em como inserir a criança nesta mudança social.

Desta forma, observo que conforme há transformações na estrutura social começa a se mudar também o conceito de infância, e isso frente à organização familiar; porque não se compreendia de certa forma e não se pensava a infância como na atualidade, ou seja, não se pensava, e não se sabia o que representava ser criança; isso porque a criança não se diferenciava do adulto e não era representada significamente na família, era vista como somente ligada ao grupo como qualquer outro personagem do contexto. (Áries, 1979, p.14). A percepção que se tinha era de um "ser em miniatura" que tinha que aprender a viver juntamente com os demais.

Mas esses são alguns dos sentimentos de infância que Áries (1976) traz, ele mostra que com o passar do tempo e em cada época se criava um sentimento, um modo de perceber a infância, e foi o que ocorreu ao fim da Idade Média, onde surgiu a percepção da criança como um ser inocente, divertido, é o sentimento de "paparicação", onde a criança era vista como fonte de distração dos adultos. E após contrário a este sentimento surge o sentimento de irritação que segundo Áries, não se suportava o sentimento de paixão pelas crianças, na qual as pessoas beijavam estas. (p.158)

Portanto, observo a cada época à busca para entender quem era a criança, em que lugar colocá-la em sociedade, ou seja, uma busca pela significação da infância, porque não se tinha claro para a sociedade o que era esta fase. Segundo Áries (1976) "o sentimento da infância corresponde à consciência da particularidade infantil, essa particularidade que distingue essencialmente a criança do adulto, mesmo jovem". (p.156). E isso não era visível a essas épocas ainda.

Contudo, voltando às épocas mais atuais observamos que o reconhecimento por essa começa a aparecer, e esse reconhecimento vem segundo Paula (2005):

Com o estabelecimento de uma nova ordem política, social e econômica, impulsionada por diversos fatores, dentre os quais o capitalismo industrial, o neoliberalismo e suas conseqüências (migrações, surgimento da família nuclear e burguesa, adstrição da criança à família e idéia de escola), ocorreram transformações que influenciaram a organização da estrutura familiar e, consequentemente a vida das crianças. (p.1)

Com novas viabilizações da estrutura social, econômica e familiar, começa a voltar se a pensar na criança como um sujeito despreparado para tal sociedade, e desta forma surge à necessidade de prepará-la para viver neste novo estabelecimento; surge então a questão de escolarizar as crianças prepará-la para o futuro, e esse é um olhar que persiste até dias atuais, pois surgiu com a questão da industrialização, porque não tinha sido necessário até esta época escolarizar as crianças, as escolas existiam para os maiores.

Isto mostra uma nova percepção da infância, e me faz pensar como houve a variação das concepções no decorrer dos anos, e isto é perceptível a meu ver, ao observar as concepções que relacionei anteriormente. Segundo os Referenciais curriculares (1998) "a concepção de criança é uma noção historicamente construída e consequentemente vem mudando ao longo dos tempos, não se apresentando de forma homogênea nem mesmo no interior de uma mesma sociedade e época". (p.21).

Sobre estas variações me debruço a observar à concepção de infância nos dias atuais onde é possível ver o reconhecimento da criança, da infância como "um vir a ser" no futuro, é um olhar que por mais que se direciona a pensar nas crianças como sujeitos ativos e produtores de culturas ainda se almejam o preparo destas para o futuro desconsiderando-se o presente. Daí surge as problematizações sobre questões da concepção da infância na atualidade: a criança já é no presente, ou será somente no futuro? Deve ser considerada no presente ou deve ser vista somente como um ser que será só no futuro desconsiderando o que ela é, sua vida, seu olhar e sua formação no presente?

Andrade (2007) que discute a concepção do "ser criança" na sociedade atual trazendo, dados de uma pesquisa feita por ela em seus trabalhos que trouxe indicações da criança estar sendo tida como um "ainda não", algo que se tornará sujeito um dia (quando adulto), pois esta tem sido vista como uma extensão dos pais, ou seja, não tem direitos próprios. (p.2)

A autora complementa dizendo que as crianças têm sido consideradas como "menores" ou "ainda não cidadãos"; ressalta que, "a infância como realidade social, tem frequentemente permanecida afastada e excluída das reflexões sobre problemas sociais e qualidade de vida", pois "a moratória infantil (o ainda não) faz com que a criança esteja sempre em lugar de objeto em um processo macrossocial encaminhado a uma futura sociedade ideal". (p.3) Ou seja, deixar de ser criança no presente porque tem que ser algo no futuro, e sobre isto vemos duas realidades infantis uma em que a criança fica atribuída a ter muitas formações escolares (cursos) para prepará-la para o futuro na sociedade; ou muitas atribuições (afazeres) para adquirir o perfil social que é "ser ativo" atribuído de muitas tarefas o que acaba tirando o prazer da infância, pois estas crianças passam a não ter tempo para o brincar.

Outra realidade é a que a criança acaba tendo que trabalhar por sua família não ter condições financeiras de se manter. No Brasil estes casos são visíveis, mas nunca colocado como pauta pela sociedade só por instituições que lutam pela questão do trabalho infantil e sobre outros aspectos da infância, mas este é outro âmbito de estudo na qual não vou me ater, pois não será o foco nesta pesquisa, apesar de ser algo relevante na questão da concepção de infância na sociedade atual.

Neste estudo, venho questionar como a escola pensa a infância, e como ela lida com as questões de trabalhar com a valorização, com a questão de a criança ser preparada para viver na sociedade, mas de uma forma que não tire o prazer e seu momento presente de ser criança. Será que a educação tem sido pensada no sentido de respeitar e valorizar a criança no presente?

Com esta perspectiva de entender como a escola a tem concebido, analisei a questão da infância que os Referenciais curriculares nos trazem. E a partir desta análise observei que o objetivo é a formação das crianças para o amanhã e isto porque a idéia de escolarização como vemos anteriormente surgiu nesta perspectiva de fazer a criança se preparar para "ser" no futuro. Segundo Guimarães (2003), "a educação no contexto da modernidade tem como perspectiva formar os adultos de amanhã, os artífices da futura sociedade". (p.3). Será que a educação tem sido pensada só nesta perspectiva, será que não se pensa na infância em si na questão de contemplar as capacidades, as percepções das crianças, os olhares destas para as questões da vida.

Este mesmo autor ao analisar a questão da educação infantil nos Referenciais curriculares diz que "a educação infantil é situada na LDB como primeira etapa da educação básica, e tem como finalidade propiciar o pleno desenvolvimento da criança". (p.27) Observo então, que o objetivo não é só formar para vir a ser e sim fazer com que a criança se desenvolva no presente. Se desenvolver não seria ter voz ser considerada alguém ativo, com sua produção e seu modo de pensar?

Mas nem sempre foi assim; A educação tradicional muitas vezes impediu isto e fez com que as crianças fossem tidas apenas como reprodutoras e não criadoras. Formavam-se indivíduos que não conseguiam agir por si só porque foram impedidos por uma educação que não considerava seu saber. E isto porque a educação era voltada a mecanizar os saberes das crianças, considerando-as como alguém que não sabe ou que não pode por ser criança. Não quero dizer assim que desta forma a criança seja autônoma não precise das intervenções dos adultos, mas que se ouçam as crianças e as veja como alguém que "é", não como alguém impossibilitado de ser no presente, mas deve propiciar as crianças formas de "ser" e "viver" a infância.

Hoje observamos não só na educação infantil, mas nas séries seguintes a questão do considerar o conhecimento que a criança já tem, ou seja, conhecimentos do âmbito social de seu contexto, pois ela como participante da sociedade em que vive aprende e é influenciada por esta em seus conhecimentos e vivências; portanto, tem conhecimento, não é alguém vazio até porque a criança aprende com o mundo dos adultos e ressignifica a realidade, o aprendizado que viveu a "seu modo" para melhor entendê-los.

Segundo os RCNs(1998):

As crianças possuem uma natureza singular, que as caracterizam como seres que sentem e pensam o mundo de um jeito muito próprio, e isto porque, através das interações que estabelecem desde cedo com as pessoas que lhe são próximas e com o meio que as circunda, as crianças revelam seu esforço para compreender o mundo em que vivem as relações contraditórias que presenciam e, por meio das brincadeiras, explicitam as condições de vida a que estão submetidas e seus anseios e desejos. (p.21)

A criança tem que ter a oportunidade de "ser" no presente para "ser" no futuro. E um dos objetivos que os referenciais curriculares (1998) colocam é da criança desenvolver sua independência, a confiança em suas capacidades (p.63). Isto é considerar a criança como um ser atuante, como alguém que pode e não como alguém que por ser criança não tem voz.

Desta forma, analisando as concepções dos referenciais vemos que este apresenta aspectos de valorização à infância na qual a criança é compreendida como alguém atuante, que possui uma cultura, um jeito de ser próprio. Com isto, a prática educativa deve buscar compreender um ensino que alcance esses objetivos, onde valorize esses aspectos da infância que os Referenciais curriculares trazem, mas isso será possível a partir de uma nova perspectiva de reconhecer a criança como produtora e não como somente produto a ser formada.

Com isso, tendo em vista essa compreensão, voltei minha pesquisa a observar a prática de uma escola municipal, a qual me trouxe uma verificação, um exemplo, de como esta trabalha a questão da infância e qual o modo que a escola a concebe. Desta forma, verifiquei o modo como é estabelecida as atividades no ambiente escolar e os projetos, de forma a averiguar se pensam na formação da criança somente para o futuro ou se trabalham com ela o presente, ou seja, como um "ser" que "é" no presente.

Tal escola situa-se em um bairro periférico de classe social baixa. São moradores oriundos de cidades nordestinas e que vieram para São Paulo tentar melhores condições de vida. A escola é de pequeno porte, composta por quatro salas que atende a três períodos: manhã, intermediário e tarde. Possui 10 professoras, uma coordenadora (diretora), e uma assistente de direção. Possui em seu ambiente um espaço (pátio) não muito grande, mas que atende ao número de crianças, há ainda um parque ao ar livre e brinquedos em condições favoráveis ao uso.

Minha pesquisa se voltou a fazer observações práticas na rotina da escola no seu dia-a-dia, sendo que estas foram desenvolvidas durante três meses, tendo como foco observar os trabalhos que são desenvolvidos e, a saber, qual a concepção de infância que esta traz consigo. Vale ressaltar que esta pesquisa informará a concepção de uma instituição não tenho o intuito de generalizar a todas, pois cada uma possui seu olhar para a criança e para a infância.

Nesta escola, pude observar na prática, que a mesma tenta por diversas vias trabalhar de modo a valorizar aspectos da infância: como as brincadeiras infantis; trabalhando questões da cultura; da imagem de si, e um outro aspecto é a autonomia da criança, a questão do expressar-se, de saber colocar suas opiniões, o que é interessante pelo fato de trazer à criança oportunidade de escolher o que gosta o que quer e o que acha ser bom; algo que traz importantes momentos onde a criança mostra seu olhar sobre as coisas e sobre o mundo a sua volta de modo a trazer a seu mundo infantil.

Outro dado relevante na observação da prática desta escola foi a questão do conselho infantil que me levou refletir e ater o foco da pesquisa sobre esta por ser uma das formas que a escola trouxe de fazer com que a criança tenha seu espaço e que ela "seja", e atue conforme seu pensar, ou seja, a escola pode sim formar a criança na sociedade, mas deve considerá-la como um ser que é e está vivendo no presente. O trabalho desta escola nos mostra formas da criança relacionar-se com os adultos mostrando suas opiniões e ressignificando o que tem a sua volta, e produzindo cultura. Observei importantes momentos de atuação destas crianças, que são as vozes das demais frente à direção escolar e frente aos demais participantes do ambiente educativo.

Segundo Paula (2005);

Considerar a infância como uma categoria social ou estrutural, não significa afirmar que as crianças estejam descoladas da sociedade, que tenham total autonomia no processo de socialização ou que suas produções ocorram sem interlocução com o mundo social dos adultos. Mas é necessário compreender que elas atribuem outras significações e sentidos sobre as coisas à sua volta e, sobretudo ao que fazem. As crianças transcendem as regras instituídas pelos adultos e instituem outras de acordo com as relações que estabelecem com seus pares, pois se sabe que os laços de amizades entre as crianças e, consequentemente, as teias de interesses afins encorajam as "invenções", possibilitando a expansão de acordos, de criações, de expressões, enfim, de produções culturais. (p.2)

As crianças nesta perspectiva possuem culturas que são construídas a partir das ressignificações que fazem das ações dos adultos tornando assim sujeitos que recriam o seu modo e a sua forma de entender e compreender aspectos do mundo, sujeitos construtores de uma cultura própria. É o que os RCNs (1998) traz em sua concepção:

As crianças possuem uma natureza singular, que as caracteriza como seres que sentem e pensam o mundo de um jeito muito próprio. E isto através das interações que estabelecem desde cedo com as pessoas que lhe são próximas e com o meio que as circunda, as crianças revelam seu esforço para compreender o mundo em que vivem as relações contraditórias que presenciam, por meio das brincadeiras, explicitam as condições de vida a que estão submetidas e seus anseios e desejos. (p.21)

Ou seja, considera-se assim a criança com uma característica própria em que ela é criadora e produz o que é significativo a seu ver; deixando assim de considerá-la como ser que nada sabe e nada produz ser passivo e reprodutor do que os adultos estabelecem que faça. É algo que passa a trazer uma nova concepção de infância, pois se acredita assim que a escola, a educação será contribuinte que a criança se desenvolva sendo atuante, criativa, que seja um individuo participante de seu processo de aprendizagem e não um indivíduo passivo que só recebe, pois olha-se as criança como sujeitos que nada sabem, incapazes, e na verdade se surpreendem quando a criança traz respostas, traz significados que nós adultos não compreendemos e até questionamos como ela sabe? Mas na verdade a criança aprende com cada experiência que vive no mundo e com os adultos que lhe são referências, mas trazem ao seu modo e adquire um novo olhar. Portanto a escola, a educação deve pensar nesta perspectiva.

Muitas vezes nós professores passamos atividades e pensamos, "mas são crianças não saberão lidar com tais propostas", e na verdade elas nos surpreendem, pois demonstram saber mais do que acreditávamos que fariam.

A prática desta escola, este projeto com o conselho infantil deixou-me perceptível a confiança, a crença em que as crianças têm a contribuir e isso é algo muito valorativo à educação, mas que implica mudanças no modo de pensar dos envolvidos, como já foi dito, porque se tem com isto uma nova perspectiva do trabalho escolar, ou seja, não só de formar, mas também de acreditar que a criança "é" no presente o que contribuirá a ela a ser no futuro. Desta forma, me leva a pensar em uma prática que vise uma abertura de espaço para a criança atuar, não ser alguém passivo, mas ser um autor de suas experiências e significações.

Vejo um diferencial nesta escola pesquisada, pois são poucas que pensam na criança como um ser que pode opinar que pode participar, que pode se expressar e que pode ter seu querer, sua escolha; é raro porque é algo é difícil entender a infância nesta perspectiva, pois mudam alguns conceitos que a escola carrega consigo, porque se acredita que deste modo o adulto acaba perdendo a autoridade, mas não é algo que tende a tirar autoridade até porque mesmo a criança tem que ter uma referência, mas nada disso influi sobre esta questão e sim acaba gerando uma aproximação maior entre a criança e o adulto fazendo os ver com percepções diferentes.

A partir do momento em que a escola passa a proporcionar um trabalho assim onde a criança tem seu espaço, participa das atividades escolares fazendo escolhas, ela passa a proporcionar que esta se torne criadora de uma cultura própria. Nesta perspectiva, a escola passa a ressignificar seu trabalho, e isto ao estabelecer que este tenha a opinião delas, e a visão de mundo que elas têm em sua "interpretação infantil".

É um trabalho que facilita também a integração entre os adultos e as crianças, possibilitando aos adultos conhecerem e contextualizar-se ao universo infantil, como forma destes saberem lidar com as crianças no âmbito escolar. A educação infantil não é pensada muitas das vezes desta forma, pois o que se vê é a criança sem nenhum conhecimento, sendo considerada "vazia", sem formas de "ser", ou seja, um ser incapaz que deve a educação ser e fazer tudo por elas.

Durante a pesquisa de observação conversei com algumas crianças de seis anos que integram o conselho infantil, e nesta conversa me disseram gostar de fazer parte do mesmo, mas disseram se sentir por vezes com "vergonha" por ter que dar opinião e falar; isso me fez refletir que sendo assim motivados a se expressarem, a opinar, aos poucos eles acabam se manifestando de forma natural, sem mais se sentirem "temorizados" em expressar suas opiniões.

Certa vez acompanhando a fala de algumas crianças integrantes do conselho frente à sala, em um momento de socialização da pauta da reunião do conselho infantil, uma das integrantes chamou-me a atenção em sua forma de expressar, muito "esperta" repetia como que de 'postura adulta" as sugestões, opiniões dadas em reunião e explicava como deviam ser feitas as escolhas das opções. Foi um momento marcante, pois nos trouxe a reflexão de como a criança traz para si as formas e as ações do mundo adulto e de como esta referência é importante para elas, pois elas acabam produzindo uma cultura própria a partir dessas aprendizagens.

Este é um trabalho que, como diz Jobim e Souza (1994) et al. Andrade (2007), "faz-se uma ruptura com a representação desqualificadora de que a criança é alguém incompleto, alguém que constitui em um vir a ser no futuro". Pois segundo estes autores ressaltam "a criança não se constitui no amanhã; ela é hoje, no seu presente, um ser que participa da construção da história e da cultura de seu tempo". (p.4).

Desta forma, como se pode pensar na criança em um ser que será só no futuro, desconsiderando sua atuação no presente fazendo assim viver e a ser um sujeito sem "voz", alguém como uma "tábula rasa", vazio, sem nada a contribuir agora, só futuramente quando adulto; a educação como descrevi já teve e ainda tem visões como estas. A criança tem sim a contribuir nos fazer entender seu universo e a nos mostrar qual a melhor forma que ela poderia e pode aprender o que ela pensa etc., e a melhor forma de contribuirmos é abrindo um espaço em que ela possa ser estar e atuar, ou seja, um espaço em que possa ser criança, em que possa ter uma infância com "voz".

Contudo, acredito que o modo como a sociedade vê a infância influência sobre a forma da escola ver a mesma, mas pensar em como ter um olhar diferenciado, em não só pensar na criança no amanhã, mas sim na sua formação no presente é algo que a educação tem que estar refletindo, a escola tem que pensar em formas de alcançar estes aspectos no que diz ao desenvolvimento das crianças.

No entanto, esta questão nos traz várias reflexões contínuas sobre o modo como a infância tem sido concebida no espaço escolar, mas acreditamos que esta pesquisa é só uma introdução, uma reflexão, uma "provocação" a nós educadores a pensarmos na infância na atualidade de forma diferente, acreditando nas crianças como sujeitos capazes, atuantes, com "voz". Desta forma, fica em aberta a questão para novas curiosidades que darão continuidade e abrirão janelas para e contínuas reflexões.

Bibliografia consultada

ANDRADE, Ângela Nobre de. A criança na sociedade contemporânea: do "ainda não" ao cidadão em exercício. Psicologia Reflexão Critica vol n.1 Porto Alegre 1998. Disponível em: www.scielo.br


O conselho infantil começou a ser organizado em abril com o processo de eleição, onde as crianças que preenchiam o perfil disposto se candidatavam; perfil este elaborado pelos professores e alunos durante discussões sobre o que seria o perfil ideal para um representante infantil do conselho. E com isto o perfil disposto para a criança se candidatar era: saber falar, não ter vergonha de se expressar, obedecer a professora e a direção, e ter propostas de melhoria das atividades e do ambiente escolar.

Os integrantes são escolhidos pelas próprias crianças e cada classe realiza a sua eleição e fazem a escolha de três ou quatro amigos que as representarão no conselho infantil, e também escolhem os suplentes para o caso de ausência destes. A escolha é realizada em cada sala, onde a professora explica e discute com os alunos, a importância da realização das escolhas destes amigos e da própria organização do conselho, e explica que elas deverão escolher conforme as propostas dos candidatos e verificar as mais viáveis e as que condizem com o que eles querem e acreditam. É um trabalho que é direcionado a fazer com que as crianças tenham autonomia nas escolhas dos projetos e nas atividades que serão desenvolvidas em cada mês.

A escolha e a votação é algo que faz a criança se sentir contribuinte com trabalho desenvolvido na escola e se sinta autônoma em tomar decisões. Depois desta escolha dos integrantes, os eleitos passam a ser a "voz" de sua sala frente à direção e as demais crianças que foram eleitas das outras salas.

Um exemplo do trabalho desenvolvido foi o mês da criança onde estas escolheram que atividades seriam desenvolvidas no decorrer do mês e isso foi feito na reunião do conselho infantil onde as crianças levantaram sugestões, aprendendo a respeitar as opiniões dos amigos e decidindo o melhor a ser desenvolvido e de acordo com que elas acham melhor e "legal".

Nas observações que realizei no decorrer deste período pude verificar que as reuniões do conselho infantil são realizadas em mensalmente onde se decide temas específicos, como a festa junina, aniversariantes, festa de natal, etc. Essas reuniões são momentos na qual as crianças decidem as atividades que gostariam que fossem realizadas na escola e também optam por melhorias no ambiente escolar; a direção faz um levantamento das opções para melhorias e envia ao departamento, ou seja, há uma preocupação em valorizar o que as crianças opinam como também a participação destas.

Deste modo, para o levantamento destas decisões e também destas opiniões as crianças se reúnem entre si juntamente com a direção que se torna mediadora da reunião e ouvinte das opiniões e escolhas feitas pelas crianças. Esta atividade mostra um espaço em que a criança deixa de ser "EN-FANT" sem voz para ser alguém com voz, que é ouvida e onde sua opinião é valorizada, ou seja, não é vista mais como um ser que não sabe e que por ser criança não pode trazer contribuição ao espaço escolar; é algo que faz a criança "ser", atuar, desenvolver e ressignificar o que a escola propõe e o que os professores a ensina a sua cultura infantil, sendo assim ela produz uma cultura e uma voz própria.

Após esta reunião é feita a integração entre os representantes de todas as salas e após um consenso entre as escolhas; estes levam a pauta do que foi levantado para a sala e discutem com as demais crianças e a professora, que acaba mediando a discussão em sala, mas que dá "a voz" para que as crianças conversem entre si e escolham, ou seja, não interfere, só faz a mediação nas escolhas, e através deste momento em sala as crianças optam pelas atividades que acharem melhor, depois que cada sala fica ciente da pauta e dos levantamentos do conselho e fazem suas escolhas, o conselho se reúne novamente e faz o levantamento das respostas e reúne as que ganharam.

Isto proporciona que as crianças desenvolvam autonomia de realizar suas escolhas e participam no que se refere às atividades de seu ambiente escolar e faz também, com que nestas interações, nestas trocas de opiniões, a criança construa sua identidade, sua maneira de ser, isto porque segundo Guimarães (2003) "a identidade pressupõe um processo de interação entre individuo e sociedade, capaz de fornecer as condições para que uma nova situação diferencial se estabeleça". (p.30) Ou seja, essa troca, essa socialização de idéias entre as crianças favorece novos aprendizados e novas construções em sua identidade fazendo as ter "voz". Segundo Paula (2005) diz "as crianças são sujeitos atuantes e por isso, criticas e construtoras de seu mundo". (p.1)

As crianças por meio do conselho atuam de forma democrática onde acabam aprendendo a se expressar, a ouvir os outros amigos e a respeitar as opiniões, e também a estar por dentro e a serem autoras das atividades e dos projetos que são escolhidos por elas. É algo muito interessante, pois se vê e se reserva um espaço onde a criança deixa de ser EN-FANT "aquele que não fala" para ser atuante e dessa forma exercer uma autonomia de se expressar e de interpretar as atividades no ambiente escolar conforme suas culturas infantis, pois a criança elabora a partir do que vivencia em seu contexto, e acaba recriando a sua vivência de mundo, e interpretando ao seu modo infantil, a sua cultura e a sua forma de ver e perceber o mundo.

Favorecer um espaço em que a criança possa discutir, possa optar, possa expressar seu modo de olhar o mundo é algo muito rico e incide outro olhar da escola, e dos envolvidos no ambiente escolar, pois deste modo a escola passa a ver as crianças como "alguém que é", e não que será; mas isto incide também outro modo de pensar em que favoreça mais a participação das crianças, incide um olhar educativo que pensa não só no futuro das crianças, mas que as reconheça no hoje, no presente, vendo-as como alguém que aprende com o presente e está a ser formar a partir deste.

O conselho infantil mostra-nos outro olhar a infância e isto é algo que nem todos os envolvidos no âmbito da educação têm, ou seja, nem todos percebem a infância como algo presente, a criança como alguém que tem suas percepções, suas escolhas e sua cultura. Muitas das vezes o que permanece no ambiente escolar é um olhar a infância como algo que tem que ser formado e que nada sabe que não sabe se expressar, e acaba não ouvindo a criança, e vendo esta com o papel de "executora" do que os adultos que tudo sabe dizem; o que acabam trazendo uma infância sem valor e sem a percepção do que a própria criança acredita ser; é uma desvalorização ao olhar da criança, a sua cultura. Algo que influencia a própria aprendizagem escolar, pois a criança sendo percebida e tratada desta forma acaba limitada, o que influencia muito seu convívio em sociedade, pois a criança não consegue "ser" por ter sido tratada como alguém que "não é" e que um dia "será".
ARIÈS, Philippe. A História Social da Infância e da Família. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. p. 14-156.

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de educação fundamental. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEF. 1998. p.21-63.

GUIMARÃES, José Geraldo M. Referencial curricular Nacional para a Educação Infantil: alguns comentários. In: _________________Pedagogia Cidadã: cadernos de educação infantil. São Paulo: UNESP, Pró-reitoria de graduação, 2003. p.27.
NETO, Elydio dos Santos. SILVA, Marta Regina Paulo da. Quebrando as armadilhas da adultez: o papel da infância na formação das educadoras e educadores. UMESP:2007. p.1

PAULA, Elaine de. Crianças e Infâncias: Universos a Desvendar. Programa de Mestrado em Educação da UFSC. I semestre de 2005. p.1-3. Disponível em: www.scielo.br

Planejamento para a Primeira Infância

Autor: Tânia M. Duk e Yara Adieny Krummenauer
Data: 22/04/2009

Resumo

Este artigo é resultado do estágio orientado pela Universidade de Caxias do Sul e apresenta as peculiaridades da construção do conhecimento numa turma de educação infantil em Canela (RS). Para tanto, foi elaborado um estudo observacional, considerando características pessoais (idade, sexo, desenvolvimento psicomotor) e socioeconômicas das crianças, além de características da instituição de ensino (estratégias para mobilizar o estudante, existência de planejamento, relação equipe/aluno/professor, organização e intenção nas rotinas estabelecidas, adequação dos recursos). Os resultados apontam o nível socioeconômico familiar do grupo como sendo de classe de baixa renda e média escolaridade. Quanto à dimensão pedagógica, atende à expectativa educacional. Na avaliação do desenvolvimento psicomotor do grupo de crianças, destaca-se o baixo desempenho no desenvolvimento motor-adaptativo. Concluímos, a partir da leitura da realidade, a necessidade de projetarmos ações didáticas interdisciplinares, buscando suprir possíveis lacunas na construção do desenvolvimento motor- daptativo desse grupo de estudantes.

Palavras-chave: Cidadania, Consciência Corporal, Pedagogia na Educação Infantil, Planejamento Didático.

Introdução

Ambicionando uma educação contemporânea, a Constituição Federal promulgada em 1988, possibilitou uma nova lei para a educação nacional. Em 1996 a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação nº 9.394/96 (LDB/96), incluindo a faixa de 0 a 6 anos no capítulo da educação básica traz a ideia do não espontaneísmo nas instituições infantis, bem como do não assistencialismo, e ainda questiona as filosofias educacionais voltadas unicamente para o aspecto da construção cognitiva no desenvolvimento infantil. A LDB/96 aponta a necessidade da formação específica do profissional e critica a falta de habilitação (MORÉ, 2006; 12asem.). O que se espera do professor contemporâneo é que ele seja capaz de identificar, analisar e desafiar os problemas de aprendizagem. O novo paradigma da educação vê neste professor investigador e reflexivo, uma possibilidade de contraposição ao ensino exclutório (MORÉ, 2006; 13asem.).

Na busca pela qualidade, a educação infantil vem sofrendo grande influência das teorias de Piaget, Emilia Ferreiro e mais recentemente, Vygotsky. É diante da questão da qualidade que surge o Projeto Político Pedagógico (PPP), cuja essência está atrelada à ideia de intencionalidade e sistematicidade do trabalho desenvolvido dentro da instituição pré-escolar, desde que garantidas às especificidades da faixa etária. Segundo o referencial curricular nacional, o PPP é uma ferramenta de sistematização e transformação da educação: "representa um avanço na educação infantil ao buscar soluções educativas para superação, de um lado, da tradição assistencialista das creches e, de outro, da marca da antecipação da escolaridade da pré-escola".

(Brasil - RCNEI. V-1), um documento que nas mãos de uma gestão democrática possibilita a descentralização da educação e a integração das Diretrizes Básicas da Educação, estabelecidas na LDB 9394/96 com as necessidades da comunidade, possibilitando a transformação do "status quo". "Para resgatar o lugar do planejamento na prática escolar há um elemento fulcral, que é o professor se colocar como sujeito do processo educativo." (VASCONCELLOS, 2005). Consciente deste desafio, a Universidade de Caxias do Sul propôs aos alunos da turma de Pedagogia um estágio dedicado à educação infantil. O objetivo central foi conhecer as peculiaridades da sala de aula, tendo como foco principal a primeira dimensão do planejamento - a análise da realidade - para esboçar uma proposta de atuação. Assim sendo, realizamos um estágio numa escola de educação infantil, no município de Canela/RS, e elaboramos um trabalho cujos objetivos, método, análise de dados e conclusões seguem descritos abaixo.

Objetivos

O objetivo principal foi esboçar um projeto didático interdisciplinar embasado na leitura da realidade e descrito em forma de artigo. Os secundários foram proporcionar ao estagiário o contato com a realidade em sala de aula, constatando possíveis distonias entre o proposto nas diretrizes e a ação docente, além de proporcionar a socialização das vivências durante o estágio.

Método

Elaborou-se um estudo observacional no Maternal I, da Escola Municipal de Educação Infantil Profª Alice Wortmann - Canela/RS - Brasil. De uma turma de 17 crianças, foram observadas em todas as 12 que estiveram presentes no período do estágio, as seguintes variáveis: idade em meses, sexo, renda domiciliar per capita declarada em reais, escolaridade dos pais (número de séries escolares completadas pelo pai e completadas pela mãe) e avaliação do desenvolvimento psicomotor (linguagem, motor-adaptativo, motor e psicossocial), utilizando-se marcos de desenvolvimento da tabela de Denver, citado por CARLI em "Desenvolvimento Físico da Criança". Para cada área do desenvolvimento, as crianças que atingiram 80% ou mais dos marcos foram consideradas com desenvolvimento pleno, enquanto que as que atingiram menos de 80%, foram consideradas com desenvolvimento parcial.

Além das variáveis relacionadas com as características pessoais e socioeconômicas das crianças, foram observadas características da escola, tais como: estratégias para mobilizar o estudante, existência de planejamento, relação equipe/aluno/professor, organização e intenção nas rotinas estabelecidas, adequação dos recursos.

Resultados e discussão

A distribuição por sexo e idade das 12 crianças era semelhante, sendo 7 (58,3%) do sexo feminino, com idade média de 50 meses e 5 (41,7%) do sexo masculino, com idade média de 51 meses. Elas estão na fase egocêntrica. Manifestam natural dificuldade em lidar com a frustração e competem pela atenção do professor, gerando conflitos no grupo. Sendo afetuoso e claro na colocação dos limites, o educador procura transmitir ao educando a segurança necessária para que desenvolvam a autoconfiança e o desapego. As crianças apresentam curiosidade sobre os fenômenos naturais, como observou-se na situação em que um dos colegas matou uma aranha: "Olha o cadáver da aranha". "Olha a cabeça dela". "E as pernas...". Ou diante da retirada da colmeia da pracinha: "Como eles matam as vespas?". "Precisa matar?".

A média de renda domiciliar per capita declarada foi de R$ 307,43, portanto, inferior a um salário mínimo. Nenhum dos pais tinha mais de 13 séries escolares completadas: 18,2% das mães e 18,2% dos pais tinham 4 séries completadas, 54,4% das mães e 36,4% dos pais tinham 9 séries completadas, 27,3% das mães e 45,5% dos pais tinham as 13 séries completadas. Avaliadas por estas duas características, classificamos o nível socioeconômico do grupo como sendo de classe de baixa renda e média escolaridade, o que, em tese, não seria o ideal para o desenvolvimento pleno da inteligência (RODRIGUES;1976).

No que se refere ao desenvolvimento psicossocial descrito por Erik Erikson (Fundamentos da Práxis Pedagógica V.1 cap. VI), as crianças manifestam, predominantemente, características de "autonomia versus vergonha e dúvida", que, teoricamente, já poderiam estar superando. Apresentam ainda traços sutis de "iniciativa versus culpa", previstos para a faixa etária.

Observamos diferença no desenvolvimento de meninas e meninos, sendo que as meninas apresentam melhor desempenho nas diferentes áreas de desenvolvimento cognitivo e motor, e intuímos que essas diferenças devam ser consideradas pelo educador na projeção de atividades intencionais. O resultado da avaliação do desenvolvimento psicomotor está sumarizado nos gráficos abaixo, nos quais é possível constatar que o desenvolvimento motor adaptativo apresentou a pior performance dentre os analisados.

Segundo Piaget, a criança entre 2 a 7 anos está no segundo estágio de desenvolvimento cognitivo, estágio pré-operatório, no qual a manifestação da linguagem possibilitará grandes modificações intelectuais, sociais e cognitivas. Elaborou-se o "Projeto Didático Interdisciplinar" priorizando esta área do desenvolvimento, considerando que o desenvolvimento motor fino-adaptativo compreende ações de ajustamento para atividades mais complexas, beneficiando-se de experiências anteriores. Sabe-se ainda que as habilidades motoras mais complexas na criança avançam por meio da coordenação entre sensação, percepção, elaboração, planejamento e execução, como necessidade de resposta diante dos objetos e situações (MAGGI, 2006-6a e 7a sem.). No projeto didático, foi proposta a ampliação das atividades lúdicas, envolvendo: o desenvolvimento da linguagem, a interatividade social e ambiental, bem como a construção do espaço temporal.

A promoção das habilidades motoras-adaptativas será realizada em atividades que possibilitem ao sujeito construir seu conhecimento a partir da interação com o grupo e com o meio ambiental, identificando seu corpo e o corpo do colega, reconhecendo-se como indivíduo, colocando-se no lugar do outro e a partir da rotina estabelecida num espaço e tempo definidos.
O projeto está embasado na metodologia dialética de construção do conhecimento em sala de aula defendida por Celso Vasconcellos, que prevê a estrutura da aula em três momentos básicos: mobilização, construção do conhecimento e expressão da síntese do conhecimento (VASCONCELLOS2, 2005).

O projeto será considerado efetivo se no acompanhamento da evolução do indivíduo e/ou do grupo observar-se o desenvolvimento e apropriação dos conceitos e valores trabalhados. O resultado desta visão deverá possibilitar a análise evolutiva do indivíduo e do grupo, propiciando a organização de ações metodológicas futuras.

O estágio orientado pela Universidade de Caxias do Sul oportunizou-nos rever e vivenciar as teorias estudadas, permitindo-nos mergulhar na realidade da educação infantil com um olhar investigativo e repensar a ação pedagógica a partir do projeto didático.

A escola visitada funciona, apesar de estar inserida numa política nacional adoecida, que ainda considera o educador como sendo o responsável pelas condições da educação nacional. Mesmo em escolas cuja ação é mediada pela "filosofia histórico-crítica da construção do conhecimento", elaborar e executar um projeto didático que contemple os propostos teóricos exige a determinação encontrada somente naquele que, preservando o ser ontológico, permanece determinado a desafiar o sistema. Durante nosso estágio observamos educadores driblando a falta de estrutura física da instituição, a fim de proporcionar condições adequadas à construção do conhecimento. Será possível pensar a internalização do planejamento pelo educador aviltado, sem antes resgatá-lo de sua alienação? Somente assim o professor será sujeito do processo educativo.

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial Curricular Nacional Para Educação Infantil: vol. 1 Brasília: MEC/SEF, 1998. http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/volume2.pdf. (acessado em 12/9/2008).

CARLI, Máira Ester de; Desenvolvimento Físico da Criança. Caxias do Sul, RS: Educs, 2006

MAGGI, Alice; VALENTINI, Carla Beatris; SILVA, Marinilson Barbosa da. Fundamentos da Práxis Pedagógica. v.1- Psicologia. Caxias do Sul, RS: Educs, 2006.

MORÉ, Marisa Mathilde; STECANELA, Nilda; ERBS, Rita Tatiana C. Fundamentos da Práxis Pedagógica v.2. Caxias do Sul, RS: Educs, 2006.

RODRIGUES,Marlene;Psicologia educacional- uma crônica do desenvolvimento humano.São Paulo,SP:McGraw-Hill do Brasi LTDA, 1976.

VASCONCELLOS1 ,Celso dos S;Construçao do Conhecimento em Sala de Aula. 16ª Ed. São Paulo:Libertad Editora,2005

VASCONCELLOS2,Celso dos S; Planejamento Projeto de Ensino Aprendizagem e Projeto Político-Pedagógico - elementos pedagógicos para elaboração e realização. 14ª ed. São Paulo:Libertad Editora, 2005

Entre o Quadro-Negro e o Data-Show

Data: 27/07/2009

Abuso é um vocábulo originário do latim "abusus" que indica um "comportamento inadequado ou excessivo." Segundo o dicionário Aurélio, o abuso significa "uso mau, excessivo ou injusto." Quando falo de abuso, também poderia falar de exagero, que no Aurélio tem como significação "coisa desmedida e que ultrapassa os limites." Mas para que serve sabermos o que é "abuso" ou "exagero"? Para mim, tudo que é aplicado de forma abusada ou exagerada, pode ser considerado um vício. E como vício, certamente não faz bem.

Todos nós docentes sabemos a transformação por que passa a educação na atualidade. Reconhecemos a teoria da Educação Bancária de Paulo Freire, e sabemos o quanto temos que usar de criatividade para instigar alunos na busca do conhecimento. E isso certamente depende de recursos pedagógicos inovadores. Tornar o ambiente de sala de aula interessante, de modo a que os alunos estejam constantemente motivados, não é fácil. As aulas expositivas cada vez mais devem ceder espaço à elaboração de pesquisas, projetos e à resolução de situações-problema. Pelo menos é isso que acredito ser nosso constante desafio, principalmente no ensino profissionalizante. Machado (2002) destaca que:

"...a formação escolar deve prover as pessoas de competências básicas, como a capacidade de expressão, de compreensão do que se lê, de interpretação de representações; a capacidade de mobilização de esquemas de ação progressivamente mais complexos e significativos nos mais diferentes contextos; a capacidade de construção de mapas de relevâncias das informaões disponíveis, tendo em vista a tomada de decisões, a solução de problemas ou o alcance de objetivos previamente traçados; a capacidade de colaborar, de trabalhar em equipe e, sobretudo, a capacidade de projetar o novo, de criar em um cenário de problemas, valores e circunstâncias no qual somos lançados e no qual devemos agir solidariamente." (p. 151-152)

Portanto, para ter sucesso nessa empreitada tão difícil, o docente deve recorrer a vários recursos em sala de aula. Se abusar ou exagerar na utilização de algum deles, seja o quadro-negro (ou lousa como queiram alguns) ou a mídia espetáculo da aula-show, estará sujeito a converter o ambiente no mais completo marasmo. Com isso, perdem a oportunidade de prover nossos discentes de competências básicas, tais como cita Machado (2002) acima. Nosso alunos devem ser motivados à leitura (interpretativa e crítica) e à discussão reflexiva, à resolução de problemas fazendo uso de suas experiências em consonância com a experiência trazida pelo professor.

Observa-se na maioria das Escolas um disputa acirrada pela reserva desses recursos multimidiáticos. Não que não seja uma forma pós-moderna de apresentar conteúdos, principalmente pela facilidade na exposição de imagens e no uso de um colorido que deixa o quadro-negro na pré-história. Mas convenhamos, o data-show não é um recurso exclusivo para atuação docente. Será que não temos outras alternativas tão interessantes quanto essa como forma de motivar nossos alunos na busca por competências? Muitas vezes, tanto a aula expositiva no quadro-negro pode ser desmotivadora quanto a aula expositiva no data-show. A única coisa que se modifica é o formato, pois o objetivo alcançado pode ser idêntico. Muitas vezes o uso do data-show, principalmente se utilizado no "escurinho do cinema", pode levar a uma malimolência extrema.

Celso Antunes em sua obra "Professores e Professauros", à qual recomendo, destaca que uma boa aula deve abrigar cinco atributos essenciais:

a) Protagonismo - Onde o aluno é o eixo do processo educacional e não um espectador com a função de ouvir.

b) Linguagem - Proporcionar um ambiente de aprendizagem que permita tanto com o professor quanto com os colegas, discussões, debates, interrogações, sugestões, análises e propostas.

c) Administração de Competências Essenciais - A sala de aula deve ser o palco central de estímulos a diferentes competências essenciais à aprendizagem, em busca de uma visão sistêmica.

d) Construção de Conhecimentos Específicos - Ligar o que se aprende ao que já se sabe, fazendo uma ponte entre o que se aprende e a vida que se vive.

e) Auto-avaliação - Descobrir que a aula foi um efetivo instrumento de transformação, uma mudança de estado entre o que se sabia antes de ela começar e o progresso posterior constatado.

Por tudo isso é necessário refletir se não estamos exagerando ou abusando no uso de algum tipo de recurso necessário à nossa prática docente. Não temos deixado de lado práticas importantes como a pesquisa na biblioteca, a elaboração e apresentação de trabalhos ou a resolução de situações-problema desafiadoras?

Prof. Jairo Brasil é Mestre em Educação pela Unisinos e docente em escolas técnicas profissionalizantes da região metropolitana de Porto Alegre.

A Infância como Categoria Histórico-Social

Autor: Jónata Ferreira de Moura
Data: 01/07/2009

Entre os séculos XV a XVIII a infância, como a concebemos hoje, começou a ganhar importância de singularidade. Neste período evocaram a necessidade de estudar e analisar as crianças pelas suas particularidades e peculiaridades, pois elas eram totalmente diferentes dos adultos, dessa feita, pensavam, sentiam, falavam, realizavam atividades de maneira ímpar. Entretanto há uma dúvida no ar: antes do século XV, como nossas crianças eram vistas? Quais as concepções acerca dos pequenos antes desse período da história da humanidade? Silva (2007, p. 23) nos revela esse cenário mostrando-nos que desde Platão até chegarmos a Rousseau a criança é tida como um ser imperfeito.

Desde o conceito de infância que se imprime na obra de Platão, de uma proposição do ideal de uma Paidéia Justa, na qual a concepção de infância não é a principal preocupação, mas um conceito que se insere na própria ausência de uma marca específica que se mescla entre o estado de inferioridade da criança perante o adulto e cidadão e aquela que acompanha o pensamento educacional na sua necessária afirmação na perspectiva de um futuro melhor e como possibilidade do que poderá ser. Passa pelo Emílio (ROUSSEAU, 1968) no qual vemos inaugurar-se um novo modo de pensar a infância moderna e a sua educação, entendida como uma formação moral e racional voltada a submeter a natureza na qual o homem está imerso desde seu nascimento e próximo dos animais, cultivando-lhes o espírito para que se torne humano.

Sendo totalmente inferior aos adultos, as crianças deveriam ser submetidas aos mandos e desmandos de todo e qualquer ser que já tivesse alcançado o estágio da vida adulta. Não havia cuidados higiênicos necessários aos membros da infância, pois prevalecia à importância à vida adulta (só aos adultos caberiam todos os cuidados necessários). Criança era um ser que nascia e se conseguisse crescer e progredir se tornaria um cidadão. Na Idade Média, seria mais um camponês ou nobre, nesse sentido, ou iria trabalhar para sustentar os dominantes ou seria servido pelos dominados. No início da Idade Moderna as preocupações com as crianças não avançaram substancialmente, pois

[...] pode-se apresentar um argumento contundente para demonstrar que a suposta indiferença com relação à infância nos períodos medieval e moderno resultou em uma postura insensível com relação à criação de filhos. Os bebês abaixo de 2 anos, em particular, sofriam de descaso assustador, com os pais considerando pouco aconselhável investir muito tempo ou esforço em um "pobre animal suspirante", que tinha tantas probabilidades de morrer com pouca idade (HEYWOOD, 2004, p. 87).

Assim, as crianças que conseguiam sobreviver só poderiam chegar ao status de ser humano quando conseguissem realizar tarefas que os adultos realizavam. Para tanto não era preciso uma pessoa preparada para cuidar dos infantes. Qualquer adulto poderia exercer essa função, pois aquela coisinha que nos faziam sorrir era um ser que pleiteava a categoria adulto; não havia apego às crianças, o sentimento não poderia ser igual ao de dois adultos, tampouco forte entre os membros da família e suas crias, pois existia um animalzinho que poderia se transformar em um ser humano igual aos demais.

Contudo, um sentimento superficial da criança - a que chamei de "paparicação" - era reservado à criancinha em seus primeiros anos de vida, enquanto ela ainda era uma coisinha engraçadinha. As pessoas se divertiam com a criança pequena como um animalzinho, um macaquinho impudico. Se ela morresse então, como muitas vezes acontecia, alguns podiam ficar desolados, mas a regra geral era não fazer muito caso, pois outra criança logo a substituiria. A criança não chegava a sair de uma espécie de anonimato (ARIÈS,1981, p.10).

Este estudioso francês foi um dos grandes ícones que colaboraram para compreendermos o que hoje conceituamos infância. Seus escritos sobre a infância nos fazem refletir acerca de uma categoria social que não está condicionada à vida adulta, e sim esta é que estar intrinsecamente dependente àquela. Pois só cuidando e preparando bem uma criança que teremos adultos sanos que não estarão revestidos de "hiatos" na sua psique. É através de uma puerícia saudável e tratada por profissionais que compreendam este estágio da vida humana que teremos adolescentes com menos problemas e adultos com poucas dificuldades para se relacionarem e conseguirem realizar seus projetos de vida. Silva (2007, p. 24), na sua tese de doutorado, analisa com sensibilidade e competência intelectual as contribuições de Philippe Ariès para o avanço que o conceito de infância conseguiu impetrar ao longo da história. Ela sintetiza dizendo que os relatos de Ariès

[...] sobre a história da infância é um marco para estudos e pesquisas sobre o sentimento moderno de infância. Ele nos mostra que a percepção da condição da infância enquanto idade específica, de um período da vida do homem, este olhar para a infância pela diferenciação entre criança e adulto é algo novo na nossa história e só aparece no século XVI e XVII, não que antes disto a história houvesse negligenciado, abandonado ou desprezado a infância, mas só a partir desse período começa a se desenvolver um sentimento novo em relação à infância e começa a se destacar a idéia de que a percepção, a periodização e a organização das etapas da vida se dão em função do próprio desenvolvimento da sociedade.



Outros estudiosos também buscaram e ainda buscam uma compreensão acerca da infância. Citando esses pesquisadores Müller e Redin (2007, p. 14) nos remete ao entendimento da infância no plural

Kuhlmann Jr. e Fernandes (2004) consideram, assim, que a infância, na pluralidade das suas configurações, é circunscrita a um discurso histórico, fruto de variados contextos. Temos a criança concreta, datada, situada, fazendo parte de um contexto favorável ou hostil a sua pessoa, contribuindo não só para a sua representação como fazendo parte de uma categoria social, mas também deixando marcas, forjando memórias. A partir daí a infância ou as infâncias estriam estão situadas nos lugares que as diferentes sociedades reservam para elas: infâncias múltiplas, diversificadas, constituídas em diferentes culturas, contextos sociais, tempos e espaços de vida. Por isso, ao mesmo tempo em que a infância se apresenta como única, como um período de vida que não volta mais, a não ser nas memórias dos poetas, também se mostra múltipla, marcada pelas diferenças de direitos, de deveres, de acesso a privilégios, de faltas, de restrições. Então, não pode ser vista como uma infância do passado e nem mesmo uma infância do futuro. Só pode ser vista a partir de um outro lugar, de um outro olhar.

Percebemos que há sempre o olhar de alguém (o adulto) sobre tal categoria social. Não há a visão desta tenra fase a partir das opiniões dos seus sujeitos, o que é dado é sempre a partir daquilo que o adulto (o filósofo, o sociólogo, o psicólogo, o professor, o médico, o responsável por ela, o político, o arquiteto, o urbanista e tantos outros) entende que é bom (FREITAS; KUHLMANN JR., 2002). Deveríamos investigar nossas crianças para compreendermos o que é realmente necessário para elas. Não estamos passando as decisões para os pequenos, estamos simplesmente buscando a participação deles, suas opiniões para a concretização das decisões.

Ainda sobre a puerícia no plural, Kuhlmann Jr. (1998, p. 30) vem nos alertar acerca de uma questão importantíssima sobre a mesma

É preciso considerar a infância como uma condição da criança [...] É preciso conhecer as representações de infância e considerar as crianças concretas, localizá-las nas relações sociais, etc, reconhecê-las como produtoras da história. Desse ponto de vista, torna-se difícil afirmar que uma determinada criança teve ou não teve infância. Seria melhor perguntar como é, ou como foi, sua infância. Porque geralmente se associa o não ter infância a uma característica das crianças pobres.

Ou seja, a condição sócio-econômica não determina a existência ou não existência da infância. Há crianças que nascem em "berço de ouro" e vivenciaram sua infância de maneira pífia; outras que estavam numa situação de extrema pobreza, contudo o "furto" da infância foi abrandado. Por isso que esta fase da vida do ser humano deve ser compreendida através da geografia que ela se constituiu, para tanto, "[...] é preciso ver a criança como um sujeito social que interage com a história de hoje, presente no tempo espaço, fazendo a sua história e sendo transformada por ela" (FRANCO, 2007, p. 129).

Desse modo, podemos nos fixar ao que hoje a sociedade entende sobre infância, seus avanços legais e as contribuições de pesquisas para revelar o pensar e o agir dos pequenos. Para tanto, observamos que antes da promulgação da Constituição de 1988 já havia indicações para o cuidado com as crianças e a concepção que norteou o direcionamento da educação oferecida a elas. E ainda, mesmo esperando quase dez anos pela publicação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº. 9 394/ 96), não podemos esquecer-nos dos diversos embates e lutas que serviram de alicerce para sua real efetivação.

A maneira como a infância é vista atualmente é exposta no Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998, v. 1, p. 21), o qual vem afirmar que "as crianças possuem uma natureza singular, que as caracterizam como seres que sentem e pensam o mundo de um jeito muito próprio [...]". Sendo assim, no decorrer do processo de construção e elaboração do conhecimento, "[...] as crianças se utilizam das mais diferentes linguagens e exercem a capacidade que possuem de terem idéias e hipóteses originais sobre aquilo que procuram desvendar [...]" (ibidem). Este conhecimento constituído pelas crianças "[...] é fruto de um intenso trabalho de criação, significação e ressignificação [...]" (ibidem, p. 22).

Podemos ainda salientar que

[...] compreender, conhecer e reconhecer o jeito particular das crianças serem e estarem no mundo é o grande desafio da educação infantil e de seus profissionais. Embora os conhecimentos derivados da psicologia, antropologia, sociologia, medicina, etc. possam ser de grande valia para desvelar o universo infantil apontando algumas características comuns do ser das crianças, elas permanecem únicas em suas individualidades e diferenças (ibidem).

Por isso já existem muitas iniciativas para devolver às crianças suas potencialidades que lhes foram abrandadas devido ao crescimento urbano que teimamos em chamar de "progresso". Estamos buscando esta compreensão não só na escola, mas também no espaço geográfico que antes era dos pequenos e agora virou um amontoado de concreto e aço. Como afirmam Redin e Didonet (2007, p. 31)

Não se pode deixar que a expansão da cidade seja determinada apenas pelo modelo econômico; é preciso fazer esforços determinados para dotá-la de meios que atendam às várias dimensões da vida de seus habitantes e, em especial, que garantam uma infância feliz.